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Niva: injustiçado e incompreendido !
por: Alvaro Melo
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Há algum tempo observo que proprietários de Nivas se queixam das brincadeiras que são alvo por parte de outros jipeiros, especialmente os donos de jipões caros, importados e cheios de "status". Contudo, há uma turma que tem Niva e curte o jipinho numa boa. Assim, como tenho alguma experiência sobre o assunto, presto meu depoimento a quem interessar possa!!
Definitivamente: o Niva é um carrinho sofrível e um excelente jipe! Tive um Niva dos primeiros, 90/91 comprado zero em jun/91. Na época minha frotinha era constituida por uma Band 89 curta de aço, completíssima de fábrica (só não veio com guincho mecânico) e incrementada em casa (freio a disco nas 4 rodas, guincho elétrico, rodões, pneuzões, etc, etc), um CJ-5 (o Mike que está conosco até hoje) e uma F-75 4x4, azulona e bem equipada que fazia muito sucesso em Paty do Alferes (a F-75 até hoje é a camionete preferida dos plantadores locais) onde ficava guardada.
Minha mulher que dificilmente nos acompanhava até em passeios mais "light" porque sua coluna não permitia, passou a sair conosco graças ao Niva. Como ele é extremamente vocacionado para estradinhas de terra, com costelas de vaca, valetas e outras surpresas normais, ela passou a achar tudo perto, pois com a tração permanente e a suspensão semi-independente, dava para andar com o pé na lata e dar a ilusão de trajetos menores. Com os outros 4x4 isso era totalmente impossível.
Nessa ocasião, o JC/RJ marcou uma trilha noturna (trilha da Manchete) que já era considerada brava mesmo de dia. Preparei-me para ir na Band, mas em cima da hora apareceu um convite pra alugá-la para um comercial da Coca-Cola e o Fábio, meu filho, na época ainda estudante de engenharia em vespera de provas, ofereceu-se para levar a Band para a filmagem onde poderia ficar estudando enquanto eu iria para a trilha com o Niva.
Na trilha juntei-me ao único niveiro presente, nosso companheiro Fred (1º Niva no JC/RJ - está com ele até hoje e nunca lhe deu boa-vida...) e pelo PX ficamos trocando figurinhas e temores tipo: como está a temperatura do teu? Reduziu? Usou bloqueio nessa? Os nivas nem bola, fizeram a trilha toda numa boa. Com 800 km rodados o meu estava dentro de um rio, na Bocaina cuja saída já derrotara outros 4x4 e lembro ainda de ouvir comentários do tipo "o cara é maluco, vai entrar com o Niva zerinho" e o bichinho deu show: entrou saiu e tudo mais. Na volta, embaixo de chuva só fiquei frustado porque os outros 4x4 se divertiam derrapando na lama e o Nivinha, sempre levando tudo a sério com seu 4x4 permanente passava reto em tudo.
Aposentei-me em 92, encerrando uma carreira de 28 na PETROBRAS e para passar o tempo associei-me a um velho companheiro que tinha uma loja especializada em compra e venda de veículos 4x4. Cansei de atender pessoas que chegavam com uma graninha curta e pediam para que arrumassemos uma Toyotinha 78, 79 que coubesse naquele orçamento. Dificilmente se conseguia algo que prestasse com essa idade até porque havia muito pouca Band rodando em mãos de particulares. A maioria vinha de empresas de ônibus, fazendas e de outras atividades pouco serenas.
Normalmente eram carros judiadíssimos, além de queixo-duro e sem reduzida (sincronizadas só a 3ª e 4ª marchas, lembram?). Nosso conselho sempre era de optar pelo Niva, cuja relação custo-benefício era excelente (conseguia-se um zero, por menos de US$ 9 mil) A maioria ficou satisfeita e alguns ficaram amigos até hoje.
No entanto é preciso salientar alguns aspectos negativos, tais como: O controle de qualidade da Lada era praticamente inexistente o que gerava uma série de pequenos problemas, chatos, mas normalmente fáceis de resolver. A rede de concessionárias organizada às pressas estava cheia de aventureiros ávidos por dinheiro, pouco técnicos e pouquissimos dispostos a resolver problemas de clientes. Os outros carros da Lada, Laika (robustos e resistentes) e Samara que sofriam dos mesmos males do Niva sem possuirem os mesmos atributos contribuiram ainda mais para prejudicar a imagem da fábrica e seus representantes no mercado. A mídia especializada, sempre atrás de assuntos empolgantes, resolveu cair de pau nos carros, sem distinção (reparem que elogios ao Niva só se encontram em revistas de off-road, quando ocorrem...).
Na verdade quem conhece e gosta de off-road, sabe o valor do jipinho. Vide teste da Jipemania sobre o novo Niva, realizado e escrito pelo Roitberg, que na minha opinião é o jornalista que mais sabe e melhor escreve sobre o off-road, daí inclusive minha preferência por essa revista.
Muita gente (especialmente mulheres, nada contra elas, apenas relato fatos) comprou o Niva por que era uma "gracinha". O desencanto consequente era também normal. Para o tipo de uso que elas davam ao carro, qualquer Uno era mais rápido, muito mais econômico e também era gracioso! Imaginem: pagar uma grana para ter um zerinho e descobrir que ele só fazia uns 6 a 7 km/l, andava pouco e ainda soltava a maçaneta na mão. O ar quente não desligava, o pedal do acelerador era alérgico a pés delicados e o volante original com aqueles desenhos decorativos dignos de uma penteadeira de p&#@, sem falar nos espelhos que fechavam sozinhos a mais de 80 km/h.
Depois vinha o problema do mau uso, de gente que não sabia ao certo para que aquelas alavancas todas, uma das quais ficava até mais perto da mão que a do câmbio. Sei de gente que estourou o diferencial andando bloqueado no asfalto e pior, sem saber!
Atualmente, temos o problema agravado, pois não se ouve falar do Niva novo, dificil de vender por causa do preço agravado pela alta do dólar e por uma incompetente e equivocada classificação tarifária, e os Nivas no mercado são usados e portanto sua compra requer cuidados que a maioria das pessoas não tem.
Para agravar, se você compra de quem nunca fez trilha nem andou na terra arrisca-se a comprar um carro bonitinho mas prejudicado pelo mau uso. Pra comprar de um jipeiro (melhor opção na minha opinião) é preciso tomar outros tipos de cuidados, porém mais óbvios e, com uma certeza: o jipe era usado de forma certa e eventuais modificações sempre visam otimizar seu desempenho.
Uma parte do preconceito que alguns Niveiros se queixam de sofrer vem deles mesmos que se sentem diminuidos por terem um jipe mais barato e menos potente e por isso tornam-se mais vulneráveis a gozações e brincadeiras.
Sinceramente: não conheço nenhum Niveiro que tendo adquirido seu jipe conscientemente e com calma e critério para não embarcar em canoa furada, sinta-se humilhado ou discriminado por tê-lo. Vejo com preocupação é a estratégia elitista de algumas concessionárias de jipões mais caros (Lands, Pajeros, etc) que organizam copas, passeios e outras atividades exclusivas para proprietários de veículos de sua marca. Imagino o que isso faz na cabeça de pessoas que se preocupam com "status" e frescuras congêneres...
Concluindo, se você gosta de off-road e não quer ou não pode investir num jipão importado ou mais caro, compre um Niva, ele tem muito mais méritos do que limitações, e não tenha medo de ser feliz.
Tenho dito!