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Os Niveiros

Álvaro Melo - na revista Jipemania


Tribos jipeiras - parte 2

Pensaram que eu tinha esquecido? Realmente a memória já não é mais a mesma,
mas sempre há um amigo que dá aquele toque e assim podemos prosseguir com
aquele assunto palpitante oriundo das profundezas do imaginário jipeiro...

Falamos na última vez dos Toyoteiros, arrogantes e prepotentes com seus
tanques travestidos de jipes cujo maior inimigo é a ferrugem... Falaremos
agora dos Niveiros. Imagino que estejam logo pensando: - vai falar mal! Nada
disso, isto aqui é um artigo científico que passa longe da maledicência, no
máximo apelamos para maldades...

Trata-se de uma tribo aguerrida, preventivamente aguerrida! Se alguém
pergunta inocentemente: "seu jipe é um Niva?", já caem na defesa, cerram os
punhos e esfriam o olhar... É preciso muita cautela para abordar um Niveiro
para falar de seu jipe.

Aliás essa tribo me lembra os pigmeus Bandar, amigos do Fantasma. Quem é
esse cara? Vocês nunca leram gibi? Histórias em quadrinhos? Não sabem quem é
o Fantasma, seu lobo Capeto, seu cavalo Herói, sua noiva e depois esposa
Diana Palmer? Não conhecem o Guran, cacique (ou pagé, ou morubixaba, ou
líder comunitário, sei lá) dos Bandar? Nunca viram a caverna da Caveira e
muito menos desconfiam quem é Kit Walker? Nesse caso sugiro analista
urgente, sua infância precisa ser revisada, revolvida e eventualmente
devolvida...

Mas voltemos à normalidade, os Niveiros são os Bandar! Seus jipes são os
Bandar do Fora de Estrada! Parecem fraquinhos e ineficientes, mas revelam-se
sempre surpreendentes. Tive um Niva dos primeiros (90/91) comprado em meados
de 91, cuja trilha de estréia foi na Bocaina (Trilha da Madeireira/ descendo).
Lembro-me de ouvir comentários sussurrados próximos à minha janela: "o cara
é maluco, vai enfiar um Niva zerinho dentro do rio!" E o Niva nem bola.
Entrou e saiu. E daí? Daí é que entrar, vários já tinham entrado e na saída
davam vexame, pois não conseguiam vencer um estreito corredor de lama sabão,
inclusive minha Band que ali estava pilotada por um dos meus filhos. O
Nivinha entrou e SAIU. Deu uma vacilada na parte mais escorregadia, mas logo
em seguida se aprumou sozinho e voltou à pista, para espanto dos espectadores
que naturalmente torciam por uma encalhada monumental... Na volta, embaixo
de chuva, todo mundo se divertindo, escorregando, descendo de lado nas
rampas e o danado retinho como um aluno de catecismo. Confesso que
tirou um pouco a graça.

E os defeitos, não tem? Claro que tem. Qual é o jipe que não tem? No caso do
Niva os problemas ficam muito por conta do baixíssimo nível de controle de
qualidade praticado na origem. Daí, aporrinhações do tipo maçaneta que sai
na mão do usuário, um maldito ar quente cujo sistema uma vez ligado assume a
condição de CPMF e passa a atormentar os passageiros com um calor infernal,
cheiro de gasolina no interior do jipe, isso para não falar naquele volante
enorme, de empunhadura fininha e com uns arabescos no centro dignos daquelas
penteadeiras que os Jipeiros tanto gostam de mencionar, e nos espelhos
originais que fecham sozinhos a mais de 80 km/h...

Acontece que ninguém deixou de fazer trilhas por causa desses problemas que
com um pouco de paciência e pequenos investimentos são perfeitamente
sanáveis. Então quem não gosta de trilhas e tem Niva, reclama do jipe, pois
não usufrui o melhor dele e ainda arca com os problemas. Inversamente, quem
faz trilhas até perdoa os problemas menores pelos prazeres que obtêm do
jipinho.

Como para alguns o jipe é também seu símbolo de status e o Niva é um dos
jipes mais baratos do mercado observa-se outro fenômeno: eventualmente
alguns de seus proprietários sentem-se diminuídos por compará-los a outros
jipes poderosos e caros e reagem mal a qualquer referência a seus jipes.
Analista neles! Nada a ver, afinal de contas onde se consegue, numa faixa de
R$ 5 a 10 mil, um jipe que encara, dependendo do nível de preparação (como
qualquer outro) trilhas complicadas e ainda funciona no dia a dia como um
automóvel, já que pela sua configuração permite uma utilização plena.

Mas também não é desses proprietários que estamos falando. Afinal quem tem
um Niva e sonha com um Pajero ou Cherokee não é um Niveiro. Niveiro é aquele
que comprou seu jipe conscientemente, analisando sua relação custo
benefício, e curtindo todos os prazeres que ele proporciona. Nessa
tribo encontramos
pessoas satisfeitas, bem resolvidas e seus Nivas maravilhosos, sejam eles
como o Mad Max, o Nivuska, o Niviper e outros armados até os dentes,
originais como a maioria dos que rodam por aí ou até embonecados como um
branquinho, polidíssimo e equipado com pneus banda branca que vi outro dia
nos arredores do largo do Humaitá.

Atualmente, devido a uma classificação tarifária que ignora sua condição
jipeiro-utilitária, seu preço final subiu muito (falando dos zero-bala,
naturalmente) o que resulta em poucos jipes novos na praça e o
envelhecimento gradual da frota rodante. Como rola na imprensa que ele vai
ser fabricado no Brasil, as tribos Niveiras espalhadas pelo Brasil afora
agitam-se excitadas, dada a volta ao mercado daquele que certamente vai se
inserir como uma opção bastante atraente!

Enquanto isso a frota rodante e bem tratada continua dando sustos e alegrias
aos seus donos. No Raid de Paty do Alferes contamos até com a presença de um
Niveiro famoso que, com sua cara metade de navegadora, anda assombrando as
competições paulistas na qualidade de papa-troféus. Não deu sorte no Rio,
pois uma pedra bairrista insinuou-se no seu trajeto e quebrou seu
diferencial dianteiro.

Simpaticamente, nosso amigo abriu mão de queixar-se à Direção da Prova da
atitude discriminatória do indigitado mineral, deixando assim de alimentar a
fogueira da rivalidade Rio - São Paulo, quase tão grande como a existente
entre as tribos Jipeiras.

Pacificador por natureza, ofereço minha receita para lidar com isso: já tive
praticamente todos os jipes cujos proprietários constituem tribos e assim
sinto-me bem em qualquer delas. O mesmo com relação à São Paulo: ao invés de
ficar criticando vá lá. Aprecie, freqüente salões, restaurantes, exposições
e curta o que São Paulo tem de bom. Inversamente, já ciceroneei paulistas pelo
Rio e tenho certeza que foram embora com vontade de voltar. Só não vale
trazerem chuva!!

Grande abraço, e até a próxima.